Apesar de ter tido momentos de mais profunda criatividade e ousadia nos últimos anos com Lost, Breaking Bad ou Community, as produções para televisão tem buscado desenvolver adaptações literárias, de quadrinhos ou de filmes consagrados, se encaixando em gêneros bem específicos, como The Walking Dead, Hannibal ou Game Of Thrones. Pois Mr. Robot fica no meio termo entre a genialidade e inventividade, e a repetição de referências oriundas do cinema. Ainda não é uma série inovadora, mas tem potencial para isso.

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Elliot é o personagem principal que conversa com aquilo que se revela um alterego do espectador, pelo menos inicialmente. Interpretado pelo eficiente Rami Malek, questiona o mundo dominado pelas grandes corporações e as relações sociais oriundas desse mundo. Socialmente incapaz de se relacionar e oscilando entre uma espécie de autismo clássico e um certo niilismo consciente, Elliot é um exímio programador que usa sua habilidade numa empresa de segurança ao mesmo tempo que é uma espécie de justiceiro hacker. Até aqui muito do que já fora desenvolvido pela série de livros Millenium, do sueco Stig Larsson, contribui para uma caracterização moderna e realista do hacker. O criador da série, Sam Esmail, faz um trabalho criativo excelente ao compor o clima e estrutura para o mundo retratado, ao longo dos episódios intercalando imagens dos grandes líderes mundiais e criticando consumismo e relações humanas. Alguns de seus personagens por mais que se tente estabelecer motivações complexas, não fogem da unidimensionalidade, como o traficante Fernando Vera, a fornecedora de drogas Shayla, o megalomaníaco aspirante a CEO de sucesso Tyrell, todos eles participando de subtramas que preenchem os episódios do meio da temporada, subtramas estas que fogem um pouco da proposta estabelecida no primeiro episódio e retomada nos episódios finais. Prova disso, é que nunca nos preocupamos realmente quando estes personagens estão em perigo ou mesmo quando uma situação trágica tem peso dramático nulo, reforçando o fato de ser narrativamente desnecessária ou de que, ao longo de dez episódios, a série tenha sido incapaz de criar algum envolvimento emocional, talvez peço fato de nos tornar alterego do interlocutor de Elliot, criando a necessidade de termos que enxergar tudo à sua maneira, com uma intenção planejada que se revelava num plot twist ineficiente nos episódios finais. Teria sido mais interessante e eficaz entendermos os personagens ali estabelecidos, suas motivações, de maneira que a narrativa pudesse discorrer sobre o seu tema central com mais liberdade e relevância, ao invés de ficar presa à construção de uma reviravolta no final. Angela Moss, amiga de Elliot, é uma exceção, fugindo do esteriótipo, tendendo a uma personagem feminina forte, com motivações compreensíveis e atitudes inteligentes. O Mr. Robot do título, interpretado por Christian Slater, se revela interessante ao longo da narrativa, mas acaba sendo utilizada de maneira inapropriada. Com exceção de  Elliot, Angela Moss e Mr. Robot são as únicas personagens tridimensionais da trama.

Com cores que alternam entre tons amarelados e de de azul e cinza, a fotografia estabelece uma lógica de frieza a certo ar de racionalidade. A música faz uso de tons eletrônicos, o que é muito pertinente à trama. Os enquadramentos vão por um caminho mais atípico. Curiosamente os personagens, na maioria da vezes, preenchem algum canto inferior do quadro com um o olhar perdido como se sentissem deslocados enquanto estabelecem um diálogo ou lidam com alguma situação, gerando uma forte sensação de estranheza, como se o ambiente se sobrepujasse ao personagem, uma estratégia bem interessante em alguns momentos, mas que nem sempre funciona.

As referências ao cinema de David Fincher são muitas, desde Clube da Luta, até mesmo Seven, passando por A Rede Social e Millenium, tentando extrair em prol da série um tom racional característico desse diretor. As obras de Kubrick também são referenciadas, como Laranja Mecânica e no uso de uma das músicas da trilha de De Olhos Bem Fechados. Há também uma citação à Rede de Intrigas, de Sidney Lumet.

simetria

Pecando na sua conclusão, a fim de construir um plot twist que nada tem a ver com os ares de inventividade e ousadia que havia estabelecido nos episódios iniciais, Mr. Robot ainda sim é uma série que pode contribuir positivamente para a qualidade dos seriados de TV que são atualmente exibidos e ser relevante nessa mídia, mas por enquanto deve se concentrar em focar o seu enredo ao longo dos episódios e extrair todo o potencial da ótima premissa que tem em mãos, ao invés de copiar e colar elementos narrativos de filmes consagrados.

Criada por: Sam Esmail
Elenco principal: Rami Malek, Chirstian Slater, Portia Doubleday, Frankie Shaw, Martin Wallstrom

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